desmitificando o exotico

Espécies exóticas invasoras são um sério problema ambiental

O jornal O Globo publicou nesta sexta, dia 12, uma notícia sobre como a interferência humana afetou negativamente a biodiversidade do planeta. Com o título “De carona com a Humanidade”, o texto cita uma pesquisa, realizada pela revista Science, que constatou uma grande similaridade entre as populações de gastrópodes — grande classe de moluscos que inclui lesmas, caracóis e caramujos — no mundo. O estudo conseguiu provar o que já era sabido pela comunidade científica: a ação do homem contribuiu para distribuir espécies pelo planeta e, hoje, as espécies exóticas invasoras são uma das principais causadoras de perda de biodiversidade mundial.

Antes da possibilidade de que fronteiras geográficas fossem rompidas – pela transposição humana dos oceanos, por exemplo – espécies de fauna e flora local eram preservadas pela dinâmica natural de seus habitats. Com o encurtamento das fronteiras – consequência do intercâmbio comercial e turístico entre as nações – foram introduzidas espécies vegetais e animais estranhas ao ecossistema regional. Algumas foram conscientemente trazidas, como os pombos que chegaram ao Brasil a bordo dos navios portugueses, outras vieram de maneira “clandestina”, como o mexilhão dourado asiático, que pegou carona nos navios que aportavam no Guaíba, no Rio Grande do Sul.

Detalhe de uma leucena (Leucaena leucocephala). Cada vagem contem aproximadamente 20 sementes e a árvore se desenvolve muito rapidamente.

No que diz respeito às florestas, também existem espécies exóticas e algumas são invasoras. Espécie exótica, apesar do nome aparentemente pomposo, são espécies estranhas ao local. Elas podem causar pouco ou muito dano, dependendo de uma série de itens, entre capacidade reprodutiva, pragas e competição geográfica com espécies nativas.

Uma árvore exótica que produza frutos muito suculentos, por exemplo, pode competir com espécies nativas que dependam da dispersão zoocórica (dispersão de sementes por meio de animais), o que pode afetar a reprodução dessas árvores. Consequentemente, a fauna que se alimenta dos frutos dessa árvore nativa pode ter sua população ainda mais reduzida ou até sumir, no caso de sua alimentação depender exclusivamente de uma espécie arbórea.

O controle das exóticas é tão importante que o compromisso de combater essa questão é assegurado por um acordo internacional, a Convenção da Diversidade Biológica – CDB, da qual o Brasil é signatário desde 1992. “As espécies exóticas tornam-se invasoras quando têm alta capacidade de reprodução e não encontram, no novo ambiente, predador ou condições desfavoráveis capazes de promover o controle populacional”, explica Ursula Taveira, bióloga da Biovert.

Colocando uma lupa na Mata Atlântica, no caso de exóticas invasoras arbóreas, podemos citar a Leucena (Leucaena leucocephala), nativa da América Central. Com capacidade de produzir sementes em velocidade muito acentuada e dispersando-as pelo vento, essa árvore invadiu a cidade do Rio de Janeiro. De crescimento rápido, ela vem se alastrando pela Mata Atlântica e se tornou um problema ambiental. A leucena abre a lista de exóticas invasoras na cidade, mas também traz consigo as amendoeiras, herança da colonização, as jaqueiras e diversas outras espécies.

Detalhe de uma amendoeira (Terminalia catappa L.) Pode chegar a 20 metros de altura e também faz parte da lista de exóticas invasoras.

A substituição de árvores exóticas, no entanto, não é tarefa fácil. Ao contrário, a remoção dessas espécies muitas vezes gera comoção pública. Algumas pessoas, por desconhecerem o trabalho ambiental que norteia as intervenções, protestam contra os cortes ou acionam órgãos públicos, como o Ministério Público. Ainda mais complexa é a execução dessas remoções quando as árvores estão localizadas dentro de Unidades de Conservação (UCs), por conta das restrições da própria legislação específica dessas áreas, ainda que a invasão de exóticas seja um problema sério para essas unidades. É o sistema contra o sistema.

Recentemente, o economista Sérgio Besserman publicou um artigo no jornal O Globo, com o título “Dois limões, uma limonada”, no qual comenta o desafio de uma economia de baixo carbono para as próximas gerações. Ele cita uma frase do escritor americano James Baldwin, que diz: “Nem tudo que é enfrentado pode ser transformado, mas nada que não é enfrentado poderá ser transformado”. O uso da frase também se aplica para a questão das exóticas. O compromisso ambiental com a substituição das exóticas precisa seguir em frente mais rapidamente e fará parte dessa caminhada a conscientização da opinião pública.

Uma pesquisa realizada em 2012 pelo Ministério do Meio Ambiente (MMA) procurou medir a familiaridade do brasileiro com os temas ambientais. Com o título “O que o brasileiro pensa do meio ambiente e do consumo sustentável”, a pesquisa indicou que apenas 26% dos entrevistados soube definir o que é “Sustentabilidade” corretamente. Para a maioria (69%), sustentabilidade é “garantir que os recursos naturais não sejam destruídos pelos seres humanos”. A resposta correta, no entanto, seria “sustentabilidade é o equilíbrio entre o meio ambiente e os desenvolvimentos social e econômico”. Esse resultado reforça o argumento de que, por desconhecimento da dinâmica ambiental, algumas pessoas reagem com muito desconforto a algumas intervenções ambientais necessárias. Isso fica claro no caso dos protestos pela remoção de árvores, ainda que sejam exóticas ou estejam destruindo calçadas e tubulações de esgoto, causando riscos à população e danos aos cofres públicos.

Coral-sol é uma espécie exótica invasora. (Foto: Aquaa3.com.br)

A Biodiversidade é importante para todos os seres do planeta. Ela garante a prestação de diversos serviços ecológicos, inclusive a segurança alimentar e o controle de pragas. Voltando a citar a matéria do O Globo, diz o texto: “Estimativas indicam que animais, plantas, fungos, insetos e microorganismos que migraram junto com a expansão da Humanidade pela Terra causam prejuízos anuais de mais de US$ 1,4 trilhão, ou cerca de 5% da economia global, na forma de extinções, perdas em criações e colheitas e gastos com saúde.”. O Brasil é um dos países que mais sofre com esse problema. O Coral-sol, por exemplo, que é originário das águas do Timor Leste, está ameaçando Abrolhos ao dizimar corais nativos. Preocupante, não?

Felizmente, há profissionais da área ambiental trabalhando para conter esse avanço e preservar a biodiversidade. Mas, então, o que você pode fazer para ajudar? Nós acreditamos que o acesso à informação é a maior arma para combater outra proliferação descontrolada, que é a de mitos e falsas verdades sobre o meio ambiente. Tomando consciência do que é fato, a população pode contribuir para um trabalho que é para o benefício de todos, mas extremamente técnico e, por isso, deve ser executado apenas por quem sabe. É importante debater essas questões publicamente, caso contrário incorreremos no erro de lutar equivocadamente por algo que não é bom para nenhum de nós. COMPARTILHE!

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