Artigo: O valor da restauração florestal é alto?

Marcelo*Por Marcelo de Carvalho Silva, engenheiro florestal e diretor da Biovert

Recebemos em nossa página do Linkedin as dúvidas de um leitor chamado Mychel, que fazem parte do título deste artigo. “O valor da restauração florestal é alto? O que justificaria a pouca iniciativa em recuperação de áreas em outros locais?” Abaixo, escrevo uma resposta a essas indagações e aproveito a oportunidade dada pelo Mychel, autor das perguntas, para compartilhar com todos algumas questões.

Prezado Mychel,

Grato pela oportunidade de falar a respeito deste assunto, mas, de antemão, peço que me perdoe pois não conseguirei ser sucinto.

Já em sua primeira pergunta está caracterizado o que comumente acontece: um juízo de valor. “O custo é alto?”, você nos indaga. Permita-me esta dedução. A faço, principalmente, pela ordem das suas perguntas, que começa pelo conceito de custo alto. Dependendo do tipo de intervenção que se faça, o valor absoluto de um projeto pode ser impactato para cima, em função da soma total de ações relacionadas àquele trabalho. Esse impacto, por assim dizer, geraria o que as pessoas costumam chamar de “custo alto”. Na realidade, pedimos que você analise não o custo total, mas o custo relativo. Vamos explicar melhor.

Antes e Depois de Projeto de Recuperação Florestal realizado pela Biovert no Morro do Pica-Pau, no Itanhangá.  Resultados que se perpetuam ao longo do tempo.
Antes e Depois de projeto de recuperação florestal realizado pela Biovert no Morro do Pica-Pau, no Itanhangá. Resultados que se perpetuam ao longo do tempo. Em cima, o local antes da intervenção. Abaixo, o mesmo local 10 anos depois.

Tomemos como exemplo o próprio projeto de recuperação do Morro do Pica-Pau (cuja imagem ilustra este texto). O valor absoluto do projeto, à época, não foi “muito alto”, mas o resultado final podemos considerar da maior relevância. O sucesso da invervenção é notório pelas imagens, mas queremos mostrar o que existe além das imagens. Para executar esse trabalho, tomamos o cuidado de utilizar um mix de espécies arbóreas que já não se faz tão presente na Floresta da Tijuca, a principal área de preservação florestal da nossa cidade. Essa criteriosa escolha das espécies objetivou permitir que a fauna e fenômenos naturais – como o vento e a chuva – dispersassem as sementes e acabassem por reintroduzir algumas dessas espécies em áreas próximas. Essas áreas, por sua vez, cumpririam o mesmo papel, de modo que a dispersão das sementes se perpetuasse.

A natureza nos brindou com um incontável número de recursos naturais. Alguns não-renováveis, outros de uma finitude vital, como a água, e ainda os renováveis, como os recursos vegetais. Embora tenhamos um território rico em recursos naturais, não podemos nos orgulhar muito da maturidade ambiental que nossa sociedade desenvolveu até aqui. A questão da recuperação florestal, de uma maneira geral, é cercada por uma atmosfera de nobreza, mas executada de forma antagônica: por um espírito pobre e não alinhado com os valores ambientais. Por exemplo: muito tem se falado sobre a ideia de que a recuperação ambiental é algo semelhante a um projeto de plantio de monocultura, utilizando-se como base as empresas produtoras de papel e celulose. Essa é uma visão, a nosso ver, muito equivocada.

Partindo para a resposta à sua segunda pergunta – o porquê de não estarmos recuperando áreas em outros locais – voltamos a afirmar os motivos acima mencionados. A sociedade ainda não foi capaz de entender que os avanços sociais, que representam conquistas para os menos favorecidos – como edificações e infraestrutura urbana – irão impactar o meio ambiente de forma contínua. No entanto, tais danos podem ser mitigados e compensados, na maioria das vezes. O reflorestamento é uma dessas maneiras. O que falta é vontade e determinação política para tal.

O trabalho que a Biovert executa é alicerçado na obrigação de gerar um legado para as gerações presentes e futuras, zelando pelo atendimento às regras socioambientais, de segurança e sanitárias. Tudo isso implica em custos que, na maioria das vezes, os agentes desse mercado não querem aceitar. Na contramão desse compromisso surgem formas “milagrosas” de recuperação florestal, a baixo custo, que na realidade mais se assemelham a ações de “marketing verde” do que propriamente um comprometimento com o amanhã. Reflita sobre isso.

Acreditamos que você seja alguém com espírito jovem, que já percebeu que esse tipo atitude – a desconexão com o compromisso do amanhã – está se multiplicando. É no espírito jovem, sempre disposto a mudar as regras e aceitar desafios, que posicionamos nossa empresa. Tenha com a Biovert um canal para permanente diálogo a respeito do meio ambiente. Não se produzem materiais suficientes sobre esse tema para que as pessoas consigam formar uma opinião equilibrada, mas nos propomos a ser um desses canais. Não somos os donos da verdade, no entanto, eu, Marcelo, particularmente, escrevo baseado nas experiências que vivencio há quase 40 anos de trabalho dedicado ao meio ambiente.

Acredite: o espírito que norteou a Biovert todos esses anos foi o de um jovem, com alma nobre, justa e solidária. Esse é o nosso norte.

Um grande abraço,

Marcelo

Quer complementar esta leitura? Confira também a matéria que preparamos com 8 desafios ao reflorestamento no Rio de Janeiro.

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