O mundo tem 3,04 trilhões de árvores. Parece muito, mas não é.

Estudo indica que o mundo possui 3,04 trilhões de árvores. Brasil é o 3º país em quantidade de árvores do ranking mundial (Foto: Corbis Images)

Em recente notícia amplamente divulgada pelos jornais brasileiros, foram apresentados os resultados do que chamou-se de “primeiro censo global das florestas do planeta”. Um estudo mundial, que contou com dados de mais de 430 mil relatórios de medições diretas executados por mais de 50 países, calculou que existam 3,04 trilhões de árvores no planeta. Esse número é sete vezes maior do que os 400 bilhões anteriormente estimados. Boa notícia, não acha? Seria melhor se não fosse colocada em xeque por outra conclusão do estudo: a humanidade derrubou 46% do total de árvores do planeta desde a introdução da agricultura, há aproximadamente 12 mil anos.

Ainda de acordo com os dados do relatório, o Brasil figura como terceiro país com o maior número de árvores do planeta (301,8 bilhões), perdendo apenas para Rússia (641,6 bilhões) e Canadá (318,2 bilhões), respectivamente primeiro e segundo lugares em número de árvores. É nesse ponto que se destaca ainda mais a importância do Brasil no que diz respeito à biodiversidade do planeta. Nos dois países líderes em volume de árvores contam-se com densas florestas boreais intocadas, em cujos territórios ocorre uma forte homogeneização de espécies, com a concentração de pinheiros e outras coníferas. Sob esse prisma, a contribuição à preservação da biodiversidade pesa ainda mais sobre as florestas brasileiras.

Árvores são recursos naturais renováveis. A remoção inevitável de indivíduos arbóreos está envolvida no processo de desenvolvimento de importantes setores da economia, tais como construção civil, agricultura e pecuária. Para que se mitigue o dano ambiental desse processo de desenvolvimento, a legislação brasileira prevê algumas medidas de proteção (Reservas Legais e Áreas de Proteção Permanente – APPs) e outras de Compensação Ambiental. Por uma questão de foco, nesse texto não debateremos as medidas de proteção. Trataremos apenas da compensação ambiental.

O que é compensação ambiental, afinal?
Como o nome dá a entender, a compensação ambiental procura mitigar os danos da remoção das árvores e isto se dá pelo plantio de novos indivíduos. Por trás dessa determinação existe uma série de questões legais. A conta é feita com base na taxa de sequestro de carbono dos indivíduos florestais removidos, o grau de importância da espécie – se é nativa de mata atlântica, exótica, rara, e risco de extinção – e outros. Cada espécie removida é classificada e isso vai gerar um indicador que determinará quantas árvores obrigatoriamente devem ser plantadas no lugar de cada uma suprimida. Por meio do plantio de novos indivíduos, em quantidade obrigatoriamente maior, esta “conta corrente” de carbono é reequilibrada.

Explicado o conceito da compensação, o que queremos debater é a qualidade e a eficácia dessa medida. A Biovert é uma empresa de engenharia florestal que tem mais de 20 anos de experiência no mercado e se especializou, entre outros serviços, na realização de medidas compensatórias. Utilizamos as melhores práticas florestais desde a produção das mudas até o plantio. Incluímos em nossos projetos a manutenção das áreas e o acompanhamento dos novos indivíduos, contemplando inclusive a reposição de mudas que não sobrevivam ao procedimento. Isso garante resultados de alta qualidade, plantios que se desenvolvem e áreas que se regeneram aceleradamente.

arara azul
O Brasil é o país mais rico em biodiversidade no mundo. Preservar essa riqueza deve ser um compromisso com todos os povos. Araras-azuis.

No entanto, a legislação de medida compensatória municipal não possui indicativos de qualidade nem exige o acompanhamento dos plantios. Essa brecha de aferição qualitativa permite que algumas empresas “paguem” suas medidas com serviços de baixa eficácia e sem compromisso com o resultado, o que eleva, como você já pode imaginar, as chances de fracasso dos plantios. Do ponto de vista legal, a medida é cumprida. Na prática, o meio ambiente continua prejudicado. Ora, se a lei da compensação ambiental define que ao menos uma árvore será plantada para cada árvore removida (a média é de quatro árvores novas para cada suprimida), era para termos crescentes aumentos na contagem.

Outro ponto relacionado à medida compensatória e bastante atual é o relacionamento do maior evento esportivo do mundo, as Olimpíadas, com o plantio de árvores. Deveríamos estar assistindo a grandes projetos de recomposição vegetal tomarem conta da cidade, principalmente o Rio de Janeiro, que executou (e ainda está executando) incontáveis obras de infraestrutura, novos hotéis, empreendimentos comerciais, todos para receber as Olimpíadas. Além dessas obras e suas medidas compensatórias “tradicionais”, o evento em si tem alto potencial poluidor e foram feitas contas de compensação ambiental para sua mitigação.

As árvores das Olimpíadas Rio 2016

O governo do Rio anunciou que plantaria 34 milhões de árvores para compensar as emissões de gases das Olimpíadas, de 2009 (quando foi anunciado vencedor) até 2016. Vamos a uma conta rápida: segundo dados de 2014, a população do estado do RJ é de pouco mais de 16 milhões de habitantes, ou seja, seriam plantadas 2,1 árvores por habitante! Você também já deve saber que o governo do estado ratificou esse número em maio de 2015, admitindo que não conseguiria cumprir nem 1/4 da meta de plantios. Estamos a menos de 330 dias dos Jogos Olímpicos Rio 2016 e não foram publicados os números efetivos de plantios realizados tampouco os locais que receberam as mudas.

O que queremos com esta pequena reflexão é mostrar que possuímos instrumentos legais para que o desenvolvimento sustentável das cidades ocorra, a exemplo da legislação de compensação ambiental, mas nós não sabemos fazer uso deles. Poderíamos estar assistindo à uma renovação arbórea em qualidade (remoção de espécies de menor relevância e substituição por árvores mais importantes ambientalmente) e em quantidade (para cada árvore cortada, em média quatro são plantadas). Dessa forma faríamos crescer a cobertura verde das nossas metrópoles ao mesmo tempo em que desenvolveríamos um setor da economia no qual o Brasil deveria ser referência mundial, não só por ser detentor do terceiro maior número de árvores do mundo, mas por ser uma nação filha da Mata Atlântica e da Amazônia.

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